Mostrando postagens com marcador literatura. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador literatura. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Sentenças sobre Arte Conceitual

0 comentários

Sentenças sobre Arte Conceitual


Um texto de Sol LeWitt, mestre da arte conceitual, foi um artista que conseguiu ser compreendido no Brasil no seu justo tempo. Antes mesmo de representar os Estados Unidos na 23ª. Bienal de São Paulo -isto é: quando já estava consagrado-, a invenção de uma "grade" minimalista já provocava um vigoroso debate entre artistas e teóricos, colocando o artista em diapasão com o neoconcretismo. Entre suas mais importantes exposições, cabe lembrar as Documentas 6 e 7 (1977 e 1982) e as participações em curadorias históricas, "Primary Structures" (Jewish Museum, Nova York, 1966) e "When Attitude Becomes Form" (Kunsthalle, Bern, Suíça, 1969).


O texto que a seção “em obras”, de Trópico, reproduz, “Sentenças sobre Arte Conceitual”, de 1969, traz a sentença que foi fundamental para Lucy Lippard no seu livro mais canônico, “Six Years: The Dematerialization of the Art Object From 1966 to 1972” (Londres, Studio Vista, 1973): "Nem todas as idéias precisam ser concretizadas". Talvez seja o caso de afirmar que nem todos os críticos, artistas, galeristas e colecionadores compreenderam o alcance desta frase. De todo modo, eis um texto para ler e reler, enquanto Sol Lewitt não está mais entre nós. (Lisette Lagnado)


*


1. Os artistas conceituais são místicos ao invés de racionalistas. Eles chegam a conclusões que a lógica não pode alcançar.
2. Julgamentos racionais repetem julgamentos racionais.
3. Julgamentos ilógicos levam a novas experiências.
4. A Arte Formal é essencialmente racional.
5. Pensamentos irracionais devem ser seguidos de maneira absoluta e lógica.
6. Se o artista muda de idéia no meio do caminho, enquanto executa seu trabalho, ele compromete o resultado e repete resultados passados.
7. A vontade do artista é secundária ao processo que ele inicia, desde a idéia até sua concretização. Sua voluntariedade pode ser pura manifestação do ego.
8. Quando palavras como pintura e escultura são usadas, elas carregam toda uma tradição e implicam a consequente aceitação desta tradição colocando, assim, limitações ao artista que hesita em ir além dos limites anteriores.
9. Conceito e idéia são coisas diferentes. O primeiro implica uma direção geral enquanto o último são os componentes. As idéias implementam o conceito.
10. Idéias em si podem ser uma obra de arte; estão em uma cadeia de desenvolvimento e podem finalmente encontrar alguma forma. Nem todas as idéias precisam ser concretizadas.
11. As idéias não vêm necessariamente em uma sequência lógica. Podem partir em direções inesperadas, mas uma idéia deve necessariamente estar completa na cabeça antes que a próxima se forme.
12. Para cada obra de arte que se concretiza existem muitas variações não concretizadas.
13. Uma obra de arte pode ser entendida como uma ponte que liga a mente do artista à mente do espectador. Mas pode jamais alcançar o espectador ou jamais sair da mente do artista.
14. As palavras de um artista a outro podem induzir uma cadeia de idéias - se estes compartilham o mesmo conceito.
15. Dado que nenhuma forma é intrinsecamente superior à outra, o artista pode usar, igualmente, qualquer forma, desde uma expressão verbal (escrita ou falada) até a realidade física.
16. Se palavras são usadas e procedem de idéias sobre arte, estas são arte e não literatura; números não são matemática.
17. Todas as idéias são arte se se referem à arte e encaixam-se nas convenções da arte.
18. Geralmente entendemos a arte do passado aplicando as convenções do presente e, assim, entendemos mal a arte do passado.
19. As convenções da arte são alteradas por obras de arte.
20. A arte bem sucedida transforma nossa compreensão das convenções ao alterar nossas percepções.
21. Perceber idéias conduz a novas idéias.
22. O artista não é capaz de imaginar sua arte nem de percebê-la antes de estar completa.
23. Um artista pode perceber erroneamente uma obra de arte (entendendo-a diferentemente do autor), mas abandonará sua própria cadeia de pensamento através desta má compreensão.
24. A percepção é subjetiva.
25. O artista não precisa necessariamente entender sua própria arte. Sua percepção não é melhor nem pior que a dos demais.26. Um artista pode perceber a arte de outrem melhor que a sua própria.
27. O conceito de obra de arte pode envolver o material da peça ou seu processo de realização.
28. Uma vez estabelecida a idéia da obra na mente do artista, e decidida sua forma final, o processo é levado a cabo às cegas. Existem muitos defeitos secundários que o artista não é capaz de imaginar. Estes podem ser utilizados como idéias para novos trabalhos.
29. O processo é algo mecânico e não deve ser outro. Ele deve seguir seu curso.
30. Existem muitos elementos envolvidos numa obra de arte. Os mais importantes são os mais óbvios.
31. Se um artista utilizasse a mesma forma em um grupo de obras, e alternasse o material, poderíamos supor que o conceito envolvia o material.
32. Idéias banais não podem ser redimidas através de uma bela execução.33. É difícil estragar uma boa idéia.
34. Quando um artista aprende bem demais o seu ofício, ele produz uma arte esperta.
35. Essas frases são comentários sobre arte e não são arte.

Minitextos

0 comentários
Devido ao seu formato enxuto e de rápida leitura, o miniconto se tornou um gênero cultivado não apenas pelos leitores como também pelos escritores das novas gerações, seduzidos pela (aparente) facilidade de se escrever um bom miniconto. Só aparente. Aqui nesta pretensiosa poética pretendo demonstrar como algumas regras são, se não fundamentais, bastante indicadas para que um miniconto funcione.

Concisão

A velha insônia tossiu três da manhã.

Dalton Trevisan (Ah, É?, 1994)


Ser breve e ser conciso são coisas diferentes. O miniconto precisa ser conciso, mais do que breve. Nesse sentido não deveríamos falar de um limite de número de letras, palavras ou páginas para o miniconto, e sim num limite conceitual. A história que ele conta precisa caber exatamente naquele pequeno tamanho, não mais, não menos. Não pode-se atrofiar uma narrativa, tampouco espichá-la. Por isso nem todos os temas e enfoques podem ser transformados em miniconto. Na verdade, raros o podem. Uma tosse às três da manhã pode ser a superfície de um miniconto; a insônia, não.

Narratividade

Caiu da escada e foi para o andar de cima.

Adrienne Myrtes (Os cem menores..., 2004)


Se a brevidade originada pela concisão diferencia o mini do conto tradicional, é a narratividade que primeiro diferencia o miniconto do haicai ou do poema em prosa (que não necessariamente são narrativos, ainda que possam sê-lo). Ser narrativo significa, por óbvio, narrar algo, contar a passagem de uma personagem de um estado a outro, implicitamente (como no mini do Trevisan) ou explicitamente (como neste exemplo da Adrienne). Sem essa narratividade, corre-se sempre o risco de fazer uma simples descrição de cena em vez de um miniconto.

Efeito

"TV NO QUARTO"E os pais na sala, assistindo a um documentário sobre os dramas da adolescência.

Leonardo Brasiliense (Adeus conto de fadas, 2006)


O grande mestre do conto moderno, Edgar Allan Poe, talvez tenha sido quem primeiro colocou o efeito pretendido no topo dos objetivos do escritor. Ainda hoje é considerado um bom conto aquele que consegue provocar algo no leitor, seja medo, compaixão ou reflexão. Quando temos uma simples descrição, não chega a ocorrer no leitor este efeito, por menor que seja, enquanto em uma narrativa como a do Leonardo Brasiliense o leitor não tem como não pensar na sua adolescência ou na sua atitude com os próprios filhos.

Abertura

Um vida inteira pela frente. O tiro veio por trás.

Cíntia Moscovich (Os cem menores..., 2004)


Como pode um texto tão pequeno provocar efeito em quem lê? A resposta está no próprio agente da questão: o leitor. À Cíntia coube contar a história de uma pessoa que morreu assassinada numa representação contundente da banalização da vida. Mas se a vítima é um homem, uma mulher, gorda, magra, nova, velha, se mora na cidade, no campo, noutro país, se era bandido ou mocinho, amante ou amado, casto ou tarado, nada disso está dito, cabe ao leitor preencher as lacunas a partir de seus conceitos e experiências. Muito possivelmente um leitor urbano como nós verá aí uma ironia com a insegurança que ceifa a vida de tantos jovens. Mas talvez um trabalhador suburbano veja a covardia de quem mata pelas costas, e não o futuro perdido por quem morre. Essa abertura é uma das riquezas do conto potencializada no miniconto.

Exatidão

"AVENTURA"Nasceu.

Luís Dill (Contos de Bolso, 2005)


Tudo bem que a abertura do texto para o leitor seja aspecto fundamental do miniconto, mas é importante que o autor seja suficientemente claro para criar o efeito desejado no leitor, e não seu oposto, sob o risco de não ser compreendido. Para tanto a escolha de cada palavra em cada posição é fundamental, quase como em um poema, pois disso depende o sucesso ou não da narrativa. Se Cíntia Moscovich escrevesse “Teria sido um ótimo escritor, mas o tiro veio por trás” o texto perderia seu recurso estético causado pela oposição frente/trás, vida/morte, comprometendo até o efeito semântico. Mesma coisa, e mais ainda, no texto “Aventura”, do Dill. Não sei se existem outras duas palavras que se casem tão bem para formar uma narrativa instigante, aberta e ao mesmo tempo repleta de significados como esta. São apenas duas palavras, quinze caracteres tão bem dispostos que é difícil não sentirmos seu efeito. E percebermos ali o cerne do conto e da literatura.

Minimalismo Literatura

0 comentários
•A literatura minimalista é caracterizada pela economia de palavras. Os autores minimalistas evitam advérbios e preferem sugerir contextos a ditar significados. Espera-se dos leitores uma participação ativa na criação da história, pois eles devem “escolher um lado” baseados em dicas e insinuações, ao invés de representações diretas. Os personagens de histórias minimalistas tendem a ser banais, comuns, inexpressivas, nunca famosos detetives ou ricos fabulosos. Geralmente, as histórias são pedaços da vida.
•A raiz da literatura minimalista americana é o trabalho de Ernest Hemingway, e um dos melhores exemplos desse estilo é o seu "Hills Like White Elephants". Como Hemingway nunca descreve a entonação que a personagem assume quando fala, o leitor é forçado a interpretá-la baseado na resposta. Além disso, apesar da paisagem ser parte integrante de uma história, ela nunca é explicitada no minimalismo.
•O nome mais associado a literatura minimalista, entretanto, é o do norte-americano Raymond Carver. Em contos de pouquíssimas linhas o autor procura captar a vida através de ângulos e personagens simples, inesperadamente transformados em figuras e fatos insólitos, misteriosos, mentirosos.
•No Brasil tem crescido muito a produção de minicontos (ou microcontos), gênero associado ao minimalismo. Nesse sentido a obra Ah, é?, publicada por Dalton Trevisan em 1994, é considerada obra-prima do estilo minimalista.
•Em 2004 o escritor Marcelino Freire resolve radicalizar e lança o livro Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século, em que convida cem autores para escrever histórias de até 50 letras (sem contar título e pontuação). No ano seguinte, a Editora Casa Verde leva a idéia para o Rio Grande do Sul, lança o Contos de Bolso, e desta obra surge o que talvez seja o menor conto já produzido em Língua Portuguesa, de Luís Dill: Aventura Nasceu.
•Ainda com referência a esse estado, o "Estórias Curtas", programa de cerca de 20 minutos exibido pela RBS TV, é outro bom exemplo de minimalismo incorporado a filmes de curta-metragem.